Varejo alimentar fecha o 1º trimestre com alerta: consumo retrai, preço sustenta faturamento e premiumização ganha força

O primeiro trimestre de 2026 trouxe um recado importante para varejistas e indústrias: o varejo alimentar segue crescendo pouco em faturamento e perdendo força em volume.

REPORTS VAREJO 8TRÊS

Emerson Soares e Rodrigo Sanner

5/4/20268 min read

Segundo o Radar Scanntech de março, o acumulado de janeiro a março registrou crescimento de apenas +1,4% em valor, sustentado exclusivamente pela alta de +3,6% no preço médio. Enquanto isso, as unidades vendidas recuaram -2,1% e os itens por ticket caíram -2,5%.

Em outras palavras: o consumidor continua indo às lojas, mas está comprando menos.

E isso muda tudo para quem trabalha com calendário promocional, trade marketing, mídia, execução no PDV e estratégia comercial.

Março foi um mês de contrastes: Páscoa ajudou, Carnaval atrapalhou

Março de 2026 teve dois movimentos opostos.

De um lado, a Páscoa antecipada impulsionou Mercearia, chocolates e ovos de Páscoa. Como parte da semana pascal caiu em março, diferente de 2025, algumas categorias foram beneficiadas pelo efeito calendário.

Ovo de Páscoa cresceu +361,4% em valor e Chocolate avançou +50,7%, puxando a cesta de Mercearia para um crescimento de +10,7% em faturamento.

Do outro lado, a ausência do Carnaval em março pesou forte sobre bebidas. Em 2025, o Carnaval caiu no início de março. Em 2026, aconteceu em fevereiro, antecipando esse consumo e deixando uma base de comparação desfavorável.

Resultado: Bebidas caíram -13,3% em unidades e -6,7% em valor.

Insight 8Três: calendário não é detalhe operacional. É inteligência comercial. Uma mesma data pode mudar completamente a leitura de performance, sortimento, mídia e execução.

Faturamento estável não significa consumo saudável

Em março, o faturamento nominal ficou praticamente estável, com alta de apenas +0,1%. Mas por trás desse número existe uma queda relevante em unidades: -3,6%.

A decomposição mostra que o preço médio subiu +3,8%, enquanto as unidades por ticket despencaram -8,2%. O fluxo em loja cresceu +4,4%, mas isso não foi suficiente para compensar a redução do carrinho.

Ou seja: o shopper até foi mais à loja, mas comprou menos itens.

Esse é um dos pontos mais relevantes para o varejo em 2026. Não basta olhar faturamento. É preciso acompanhar volume, composição de carrinho, categorias que ganham incidência e categorias que estão perdendo espaço no ticket.

Insight 8Três: o varejo precisa sair da gestão baseada apenas em venda bruta e evoluir para uma gestão por comportamento de compra. O dado precisa virar plano de ação.

Bebidas acendem o alerta: queda em volume e estoque parado

Bebidas foram o principal detrator do mês.

A cesta registrou queda de -6,7% em valor e -13,3% em unidades. Cervejas, sucos e refrigerantes puxaram a retração em faturamento, enquanto categorias como gin, rum e gelo tiveram quedas expressivas.

Mesmo retirando o efeito sazonal do Carnaval, o relatório mostra que a queda de bebidas permanece relevante: a cesta recua -6,5% em unidades dessazonalizadas.

E há outro ponto de atenção: estoque.

Cerveja apresentou o maior nível de dias de estoque dos últimos 13 meses, com menor ruptura, mas também com alto índice de não venda. Na prática, o produto está disponível, mas não está girando como deveria.

Insight 8Três: estoque cheio não é sinônimo de operação saudável. Se o produto está na loja e não gira, o problema pode estar em preço, exposição, sortimento, ocasião de consumo, comunicação ou calendário promocional.

Mercearia cresce, mas puxada por Páscoa e preço

A cesta de Mercearia foi o grande destaque positivo de março, com +10,7% em valor. Porém, o crescimento veio quase integralmente de preço, já que as unidades avançaram apenas +0,5%.

O efeito Páscoa foi decisivo:

  • Ovo de Páscoa: +361,4% em valor

  • Chocolate Cobertura: +55,6%

  • Chocolate: +50,7%

Isso mostra a força das datas sazonais quando bem trabalhadas, mas também reforça que o crescimento não foi necessariamente uma retomada ampla do consumo.

Insight 8Três: Páscoa não pode ser tratada apenas como uma exposição de ovos. Ela deve ser uma plataforma de trade: chocolates, confeitaria, mercearia doce, receitas, combos, retail media, ativações com indústria e comunicação de ocasião.

Mercearia básica segue pressionada: o consumidor popular está comprando diferente

Enquanto categorias mais sofisticadas e sazonais ganham força, itens básicos continuam pressionados.

Mercearia Básica recuou -7,3% em valor, mesmo com leve alta de +1,6% em unidades. A principal explicação está na forte deflação de -8,7%, puxada por itens como arroz, açúcar, óleo e café.

Esse movimento reforça uma mudança importante: o consumidor está mais seletivo, mais sensível ao preço e reorganizando prioridades dentro do carrinho.

O relatório traz também uma análise de Ricardo Amorim sobre premiumização. Segundo a leitura, produtos mais sofisticados e discricionários vêm crescendo, enquanto itens básicos sofrem retração. A explicação passa por dois fatores: redução da renda disponível da população de baixa renda, impactada pelo avanço das apostas, e aumento de renda disponível da classe média e rendas mais altas com mudanças no Imposto de Renda.

Insight 8Três: a mesma loja pode atender dois consumidores muito diferentes: um buscando economia extrema e outro fazendo trade-up. A estratégia precisa reconhecer essa dualidade.

Premiumização: o novo jogo do varejo em 2026

Um dos insights mais fortes do relatório é a ideia de que 2026 pode ser o ano da premiumização.

A comparação entre inflação e preço médio mostra que, em 2025, os preços evoluíam abaixo da inflação, sinalizando trade-down. A partir de janeiro de 2026, o preço médio passa a crescer acima da inflação, indicando migração para produtos de maior valor agregado.

Isso significa que o consumidor não está apenas pagando mais. Em algumas categorias, ele está escolhendo produtos melhores, maiores, mais sofisticados ou mais convenientes.

Categorias como chocolate, refrigerante e biscoito aparecem entre as maiores contribuições para a inflação acumulada em 12 meses. Já café, frango e ovo aparecem entre os principais vetores de deflação.

Insight 8Três: premiumização não é apenas vender produto caro. É construir percepção de valor. Embalagem, exposição, comunicação, experiência, mídia e storytelling fazem diferença.

Atacarejo sente a pressão

No acumulado de janeiro a março, todos os formatos cresceram em valor, exceto o atacarejo, que caiu -1,0% em mesmas lojas.

Em março, o cenário ficou ainda mais pressionado. Todos os formatos praticamente zeraram crescimento em valor, mas as unidades recuaram em todos eles. O atacarejo caiu -0,8% em valor e -3,5% em unidades.

Esse dado é relevante porque o atacarejo é historicamente associado à busca por economia. Quando esse canal também perde volume, o alerta sobre poder de compra e seletividade do consumidor fica ainda mais forte.

Insight 8Três: preço continua importante, mas preço sozinho não sustenta crescimento. O atacarejo precisa fortalecer comunicação de valor, experiência, categorias destino e ações cooperadas com a indústria.

Regionalização: Nordeste cresce, Norte e Sudeste sentem mais

O desempenho regional mostra que o Brasil do varejo não é um só.

Em março, o Nordeste foi o destaque positivo, com crescimento de +2,3% em valor e a menor queda em unidades entre as regiões: -1,1%.

Na outra ponta, o Norte teve a pior performance, com -2,1% em valor e queda de -3,9% em unidades.

São Paulo também teve retração em valor, de -0,2%, com queda forte de -5,2% em unidades. Já MG/RJ/ES ficaram estáveis em valor, mas com queda de -4,8% em unidades, compensada por alta de preço.

Insight 8Três: calendário nacional precisa de leitura regional. O que funciona no Nordeste pode não funcionar em São Paulo. O que vende no Sul pode não ter o mesmo apelo no Norte. Comunicação, mix, preço e mídia precisam ser regionalizados.

Promoção precisa ser mais inteligente, não apenas mais agressiva

O relatório mostra uma leve intensificação promocional em março. O peso promocional subiu +0,2 p.p., com maior venda incremental e descontos mais profundos.

Mas o dado mais interessante está na eficiência por canal e categoria. As categorias com maior resposta promocional variam bastante por perfil de loja.

No Super 1-4, leite condensado teve destaque.
No Super 5-9, papel higiênico.
No Super 10+, óleo.
No atacarejo, chocolate.

Isso mostra que promoção boa não é a mais barata. É a mais bem direcionada.

Insight 8Três: desconto sem estratégia corrói margem. Promoção com inteligência de canal, categoria e shopper aumenta sell-out e rentabilidade.

Shopper: categorias que entram e saem do ticket contam uma história

A análise de incidência nas cestas mostra quais categorias ganharam e perderam presença nos tickets.

Entre os destaques positivos aparecem categorias como chocolate, ovos de Páscoa, energético, bebida vegetal, café premium, café cápsula, verdura, queijo e fruta.

Entre as quedas, aparecem itens como cerveja, refrigerante, arroz, leite líquido, açúcar, pão de forma, sorvete de massa e algumas categorias de limpeza e perfumaria.

Esse dado é valioso porque mostra não apenas o que vendeu mais, mas o que passou a fazer parte da rotina de compra do consumidor.

Insight 8Três: incidência no ticket é um radar de relevância. Se uma categoria perde presença, talvez ela precise de nova comunicação, melhor exposição, pack promocional, degustação, incentivo ou reposicionamento.

Canal Perfumaria: menos volume, mais preço e consumidor seletivo

O relatório também traz uma análise especial do canal perfumaria.

Em março, o canal recuou -5,5% em valor e -13,0% em unidades, enquanto o preço médio subiu +8,7%.

A maior queda veio de Cuidado da Pele, com -13,8% em valor e -23,6% em unidades. Cuidado do Cabelo, maior categoria do canal, também recuou -2,6% em valor.

Por outro lado, Coloração apareceu como destaque positivo, com crescimento de +8,5% em valor, impulsionada por coloração permanente e tonalizante.

O dado mais interessante é a possível migração de consumo: enquanto Tratamento Capilar retrai no canal perfumaria, a categoria cresce no varejo alimentar no primeiro trimestre.

Insight 8Três: a disputa entre canais está mais forte. O consumidor compara, troca de canal e busca conveniência. A perfumaria precisa trabalhar mix, precificação, experiência, conteúdo técnico e ativação de categoria.

O que o varejo precisa fazer agora?

Os dados de março mostram que 2026 será um ano de leitura fina.

Não basta vender mais caro.
Não basta fazer promoção.
Não basta abrir loja.
Não basta colocar produto na gôndola.

O varejo precisa entender:

  • Quem está comprando menos

  • Quem está fazendo trade-up

  • Quais categorias estão perdendo incidência

  • Onde existe estoque parado

  • Qual canal responde melhor à promoção

  • Como as datas sazonais mudam o comportamento de compra

  • Onde indústria e varejo podem construir ações cooperadas

O jogo agora é de inteligência.

É transformar dados em calendário.
Calendário em campanha.
Campanha em execução.
Execução em sell-out.

Como a 8Três enxerga esse movimento

Na 8Três, acreditamos que o varejo precisa parar de olhar datas, categorias e campanhas de forma isolada.

O relatório deixa claro que performance vem da integração entre:

Trade Marketing para captar verba e construir ações com a indústria.
Calendário promocional para aproveitar sazonalidades com antecedência.
Retail Media para transformar canais do varejo em mídia rentável.
BI e dados para monitorar preço, ruptura, estoque, shopper e execução.
Comunicação vendedora para transformar oportunidade em conversão.
PDV bem executado para garantir que a estratégia aconteça na ponta.

2026 será o ano de quem souber equilibrar preço, valor, experiência e eficiência.

Porque no varejo, crescer não é apenas vender mais.
É vender melhor.

8Três. A agência mais varejo.

Fonte: Radar Scanntech Mar/2026